A origem do Bordado Empoderado

Postagem original de maio de 2016, publicada no Medium.

Tudo começou em setembro de 2015. Uma amiga comentou que queria aprender a bordar — tinha visto bordados feministas no Instagram e não sabia como/onde/com quem aprender. Me surpreendi com a vontade dela, tão deslocada temporalmente da fase em que eu aprendi a bordar. Fiz a oferta de ensiná-la. Uma tarde de bordado, algumas trocas de imagens no Pinterest e o curso começava a surgir na minha imaginação.

Antes mesmo de pensar em um formato o curso já tinha um público-alvo: as meninas de um grupo feminista que participo desde 2014. O meu desejo era encontrá-las pessoalmente, produzir bordados e conversar sobre nossos temas: libertação da pílula, métodos contraceptivos naturais, relações conflituosas — familiares e amorosas — , coletor menstrual, veganismo, direitos LGBT, descriminalização do aborto, consumo sustentável e consciente, privilégios e preconceitos. Em resumo: pautas políticas e muito feminismo.

Inquietações

Algumas dúvidas adiaram a criação do curso: havia mesmo interessadas? que local cederia espaço para o curso? como explicar para as pessoas o que elas precisavam levar de material? cada aluna decidiria o que bordar na aula?

A prática do bordado, por si só, ainda me remetia a uma arte injustiçada, considerada menor por ser feminina, com uma infeliz imagem de retrógrada e machista.

Bordado Empoderado foi o único nome possível, o único que me ocorria ao pensar no curso. Ao mesmo tempo que esse nome me inspirava ele também fazia minha síndrome do impostorgritar. Sou mesmo empoderada a ponto de chamar meu curso disso? Um TCC feminista me tornaria apta a direcionar as conversas das aulas para assuntos feministas? E se alguma aluna reclamasse que o curso não era empoderado o suficiente?

Inspirações

As dúvidas mais cruéis sobre juntar feminismo e bordado foram respondidas por mulheres e seus lindos trabalhos: Tramp GrammaClube do Bordado, e Subversive Cross Stitch são alguns exemplos.

Minha inquietação mais prática: onde fazer o curso, foi facilmente resolvida com uma conversa. Lembrei de um curso que fiz em 2014, de cadernos artesanais, que teve uma colega de faculdade como professora em uma associação que me pareceu um lugar genial. Ali por novembro tomei coragem para fazer o primeiro contato e a APPH me acolheu, através da Anelise, de braços abertos me dando ideias, incentivando e apoiando.

Com um local definido, com uma data marcada — 16 de janeiro de 2016, quase cabalístico —, ainda não me sentia segura. Fui adiando a criação do evento no facebook.

Fui lá e fiz

Chegaram as festas de final de ano e, naquele ímpeto de resolver tudo antes da virada, no dia 26 de dezembro finalmente criei o evento. A descrição objetiva, o valor de inscrição baixo, as imagens de bordados que não eram meus (confesso!) e alguns poucos convites espalhados na rede demonstravam claramente que eu estava apostando pouco.

Em menos de 24 horas as vagas da primeira turma já estavam esgotadas e uma fila de mais de 20 pessoas aguardava por uma segunda turma.

Os meses passaram e as turmas foram seguindo. Com o tempo minhas inquietações sobre o nome do curso se desfizeram: as frases sugeridas para os bordados (por mim e pelas alunas) acabaram cumprindo o papel fundamental de abrir caminho para os assuntos mais polêmicos. Mas não foram só as frases. A verdade é que tive muita sorte de alcançar um público de mulheres maravilhosas, atentas, interessadas, generosas e inspiradoras.

Em quatro meses de curso tive mais de 70 alunas iniciantes. No final de abril a primeira turma se formou no curso, com 16 horas de bordado incluindo todas as técnicas que soube ensinar. Outros espaços de ensino e arte demonstraram interesse em receber o curso e nos próximos meses o Bordado Empoderado chega na Casa Frasca e na FLAMINGOwtf.

O futuro

Esse projeto, inicialmente desprovido de ambição, acabou abrindo muitas portas. Comecei a fazer mais peças e tenho até um pequeno estoque pra vender em feiras e por encomenda. Além dos módulos regulares do curso tenho planejado variações incluindo técnicas novas, convidando profissionais de outras áreas e alcançando públicos variados.

Além de oportunidades o curso me trouxe pessoas. Fiz amigas bordando. Me reconheço um pouquinho em cada uma. Me aceito, respeito e admiro mais por toda essa experiência: o curso me empoderou.

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